11.4.06

"SEM-MÍDIA" PEDEM FIM DO JABÁ


Trabalhadores da indústria musical querem aprovação de lei que criminaliza propina midiática

Por Bruno Zornitta

Sabe aquela música que toca o dia inteiro, em todas as rádios comerciais? Um grande sucesso, não? Nem sempre. Radialistas chegam a receber até R$ 70 mil para tocar de três a cinco vezes por dia determinada música a pedido de grandes gravadoras, empresários da indústria fonográfica ou intermediários. Trata-se do famoso jabá, pagamento de verbas ou favores para promover artistas nas emissoras de rádio e TV brasileiras. Para combater essa prática, artistas e produtores musicais cariocas criaram o Movimento pelo Fim do Jabá. Eles estão recolhendo assinaturas em um documento que pede a aprovação do Projeto de Lei 1048/03, que torna crime o jabaculê.

O jabá, palavra derivada de jabaculê (dinheiro, gorjeta, propina), pode ser feito de forma clandestina ou declarada. "O jabá propriamente dito acontece quando, informalmente, um radialista ou apresentador recebe dinheiro ou favores de forma direta ou indireta (ex: a gravadora coloca uma motocicleta nova para fazer sorteio na rádio) para, em troca, executar alguma música. Já a maneira oficial, chamada de 'verba para divulgação', funciona como parte integrante do material promocional dos discos", explica o deputado Fernando Ferro (PT/PE), na justificação do PL 1048, de sua autoria.

Recentemente, as gravadoras Warner Music e Sony BMG foram condenadas, em ação movida pelo Ministério Público de Nova Iorque, a pagar multas no valor de US$ 5 milhões e US$ 10 milhões, respectivamente, pela prática. A condenação das multinacionais é fruto de uma investigação de quatro anos e as próximas gravadoras na mira da justiça estadunidense são a Universal Music e a EMI. O acontecimento é um bom precedente para a aprovação da lei anti-jabá no Brasil, que estabelece penas como multas, suspensão ou cassação da concessão pública de rádio ou TV.

"O jabá é uma espécie de mensalão das rádios. Essa forma de corrupção tira as pequenas empresas nacionais do páreo. Elas não têm como competir com esse esquema, que serve para beneficiar alguns poucos artistas e diretores que, por isso, se calam em detrimento de todos os outros", diz Bia Grabois, música e integrante do Movimento pelo Fim do Jabá. O cantor Lobão também denuncia a conivência de artistas com a prática: “O medo de algumas pessoas em enfrentar a indústria do jabá é até genuíno no panorama atual: qualquer um sabe que corre o risco de ser deletado da mídia, caso comece a criticar esse processo”, disse, em entrevista ao JB.

Além dos artistas "sem-mídia" e das pequenas gravadoras, o jabá prejudica também os ouvintes, que ficam reféns de uma programação de baixa qualidade e diversidade. Essa situação vai de encontro ao interesse público, princípio que deve nortear as rádios e TVs (que são concessões públicas). “Não escolhemos o que queremos ouvir, eles escolhem por nós”, diz Bia Grabois. Para conhecer o Movimento pelo Fim do Jabá e aderir ao abaixo-assinado, acesse www.movimentopelofimdojaba.blogspot.com.

* Texto publicado na edição impressa número 38 do Fazendo Media [ver www.fazendomedia.com]
É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

1 Comments:

Anonymous Toninho said...

O Jabá é a censura exercida pelo poder da grana. É a mordaça colocada na boca do artista brasileiro. É um crime porque impede que a música enquanto arte chegue aos ouvidos, mentes e coracões das pessoas. Impede que a arte de mestres como J.S.Bach, Mozart, Villa-Lobos, Pixinguinha, Nazareth, Tom Jobim, Piazzolla, Charlie Parker, Guinga, Cartola,...Paulinho da Viola, e todos aqueles que fazem arte e não "música" descartável chegue aos ouvidos das novas gerações. E É um crime porque a arte musical é patrimônîo da humanidade, devia poder chegar a todos. Isso, inclusive. deve ser uma das tarefas de um Ministério da Cultura
o Jabá é um crime de lesa cultura, provoca o genocídío cultural.
Toninho Carrasqueira

setembro 13, 2006  

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