O MINISTRO E O JABÁ EM PAZ
BRASÍLIA – SÃO PAULO
Por Eduarda Fadini*
Estava eu em Brasília resolvendo uns pepinos no Ministério da Cultura sobre uns projetos que tenho lá como produtora (pra viver de música é preciso jogar nas onze), quando me deparo com um ajuntamento no jardim
Havia três dias, nosso Ministro professara pérolas no jornal O Globo sobre a grave e insustentável situação do jabá e o Projeto de Lei 1048/2003. Transcrevo as melhores partes: “... Se virar crime, como é que se vai provar? ... É necessária uma configuração justa para quem não tem condição de arcar com a prática do jabá... cotas mesmo, para o repertório menos competitivo ... Precisamos nos ater ainda sobre o projeto, estudá-lo com a devida atenção... Isto precisa ser discutido antes de se criminalizar... Quanto à lei em si, é preciso examiná-la ... antes de ter uma posição oficial... examinar as alternativas, de acordo com a realidade...”
Como é que se vai provar?!? Configuração justa?!? Cotas?!? Alternativas de acordo com a realidade?!? Que realidade, Ministro, a sua, da Warner ou a de tantos artistas excluídos desse Sistema Mercantilista Cultural?
Enfim... Com o peito apertado de artista que carrega seus CDs na bolsa e não tem grana pra pagar jabá, tive vontade de gritar: “E aí Gil? E o jabá?” Não gritei. A minha volta todos aplaudiam. As tietes tietavam, os puxa-sacos puxavam e os curiosos, bem os curiosos... Apenas eu tinha o peito apertado e os olhos duros de quem se sente traído...
Ele desce do palquinho e as tietes, os puxa-sacos e os curiosos, enfim...
Vou falar com ele – pensei – tenho que falar com ele!
Me disfarço de tiete, estendo a minha agenda (cheia de contas a pagar) e ele “nem te ligo”.
– Ministro, um autógrafo, por favor, Ministro!
Ele finge que não ouve.
Num gesto extremo, eu puxo o Ministro pelo ombro do paletó e repito:
– Gil, um autógrafo, por favor! Não é todo dia que se pode ter um autógrafo de um Ministro! – e enfio a agenda na frente dele.
Vencido, ele assina e enquanto isso eu pergunto:
– E aí Ministro? O jabá vai acabar?
Ele me sorri um sorriso blasé e responde:
– Eu creio que não...
Eu replico:
– Mas e nós, músicos, Ministro, o que faremos?
Ele sorrindo ainda mais responde:
– Continuem fazendo música, ora!...
Ele me devolve a agenda e a caneta sem dar importância e segue em frente com o seu sector de puxa-sacos.
Eu fico ali parada, vendo aquele sujeito indo embora e penso nos últimos 20 anos da minha vida lutando para sobreviver de música. Anos de estudo e dedicação. Penso em todos os artistas que não tem grana pra pagar jabá e penso que eu queria mesmo era ter ouvido dele que sim, que ele estava lutando por isso, queria que ele desmentisse aquelas declarações rocambolescas e vazias do jornal.
Com a cabeça explodindo em ???? e o coração pesado, coloco a agenda cheia de contas na bolsa e vou à luta. Pois eu posso não ter grana pra pagar jabá, mas as minhas contas, essas eu tenho que pagar.
* 35 anos, cantora, compositora, professora de canto e produtora cultural.
Trilha sonora para o encontro com o Ministro: “Quem canta” de Marcos Lima, compositor Niteroiense, músico, artista, mais um lutador. Salve Marquinhos!
Para ouvir: http://www.tramavirtual.com/eduarda_fadini

4 Comments:
Pra começar a acabar o jabá será preci-necessário(dá-lhe novos baianos) acabar com a pouca vernha, ou melhor, com a falta de vergonha na cara dos politicos que distribuem as conseções de radiodifusão, enquanto as radios forem assim distribuidas, para quem arte nao interessa e jabá é cliente,é receita, é negócio, nao haverá mudança neste cenário...
CORRIGINDO - Pra começar a acabar o jabá será preci-necessário(dá-lhe novos baianos) acabar com a pouca vernha, ou melhor, com a falta de vergonha na cara dos politicos que distribuem as concessões de radiodifusão, enquanto as radios forem assim distribuidas, para quem arte nao interessa e jabá é cliente,é receita, é negócio, nao haverá mudança neste cenário...
Outro dia vi uma entrevista do presidente da Varig no Jô Soares e foi de dar nojo! Estava claro que o gordo só entrevistou o tal executivo para fazer um agrado à empresa que é fiel patrocinadora de diversos espetáculos. A entrevista (sic) foi uma levantada de bola de doer, que só serviu para llustrar o ego do presidente da Varig. Isso é que é jabá de peso!
Sou músico também, independente, é claro, mas penso que é muito mais eficaz obrigar as rádios a veicular determinado conteúdo de artistas independentes do que acabar com o jabá. Acabar com o jabá provavelmente não mudaria nada pois seria impossível fiscalizar e, no mais, o que pode nos levar a crer que com o fim do jabá as grandes gravadoras deixariam de ser privilegiadas pelas rádios? Existem inúmeras outras formas de favorecimento. É um problema complexo que passa pela luta pela democratização dos meios de comunicação. Felizmente, o consumo da música está deixando gradativamente as rádios e indo para a internet, onde estamos todos nivelados.
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